Quando eu era uma universitária, menina capixaba, na UFES, a
esquerda estudantil me chamava de esquerda festiva. A mim e minha trupe de
artistas e outros pensadores que ousavam ser alegres na irreverência. Era como
se ter bom humor tirasse a seriedade dos temas. Sem contar que o nariz torcia
de homofobia, misoginia, palavras que não estavam na boca do povo daquela
geração como estão agora. Avançamos muito, mas convido minha esquerda de hoje a se olhar no espelho.
Todos nós, inclusive eu. O que veremos? Quem somos?
Fui à manifestação das Diretas Já em Sampa, de ônibus,
peguei o metrô, fiz todo o processo pela via popular. Ando pouco de metrô e me
lembrei que alguns amigos me ligam dizendo: “Estou no metrô em Paris, estou
entrando no metrô em Londres, em Nova York”.
E não me ligam de Benfica ou Pavuna. E é gente de esquerda. O que
exatamente não é chique? Preciso entender.
Venho dizendo por aí, nos encontros, nos salões dos cafés
filosóficos que frequento, que é preciso que reparemos se não estamos, sem perceber,
perpetuando pensamentos e opressões contra os quais pensamos lutar a vida
inteira. Portanto não faz sentido que, por ingenuidade ou cegueira, se continue
a ver o mundo da sacada da Casa Grande. Acho que vale a pena dar uma olhada na
educação que recebemos toda embutida de preconceitos e de forma tão arraigada,
por mais de esquerda que sejamos, em quantos de nós nunca ocorreu, nem no
imaginário, namorar ou casar-se com um preto ou uma preta? Sendo Brasil.
A gente tem que se perguntar se a gente não está
reproduzindo e perpetuando a obra da escravidão. Se não há um sequer jornalista
preto nos quadros dos maiores jornais do país, ou há só um,o que isso diz de
nós? Por que, se tem gente de esquerda escrevendo roteiros, filmes
publicitários, ensaios, dirigindo jornais e etc? Por que em tais plataformas de
vanguarda o negro não figura? O que faz isso ainda não entrar no olhar de um
jovem produtor de elenco? Esse escrito é para todos.O racismo é um sistema, e
como tal, está emaranhado em vários modos e critérios de forma tão normativa
que nem percebemos o quão bizarro e atuante ele se faz em várias ações diárias
nossas. Às vezes, em calorosas discussões, alguém fala: “Isso é o “racismo
inverso””. E sei que quem me diz isso não sabe que quando usa tal expressão
está reconhecendo a firma de que concorda que o “racismo certo” é o do branco
sobre o negro. Como se existisse algum racismo certo.
Não quero ser chata aqui, nem indelicada, muito menos quero
desconcertar meus amigos, inúmeros, brancos no sentido de que, apesar de todas
as suas ousadias na vida, apesar do seu pensamento inclinado ao bem estar comum
e à coletividade, seu olhar continua na gaiola da Casa Grande. Entram em
restaurantes, frequentemente, onde não há presença de nenhum negro entre os
clientes, algumas vezes, nem entre os garçons e outros funcionários, e não
reparam nisso. Isto está dentro do normatismo, do racismo “certo”. Não é por
maldade, trata-se de uma espécie de cegueira, não houve negros em seus
colégios, em seus condomínios, na vizinhança. Não está no escopo do que eles
chamam de sua realidade numa vida de flagrante privilégio. Uma grande amiga, Ju
Mesquita, atriz, branca, artista da melhor qualidade, me confessou, no dia das
Diretas Já em Sampa, que só agora percebeu o quanto de privilégios cobriu a sua
vida, sem que ela se desse conta, até então, sem que ela percebesse que as
chances oferecidas aos negros são inversamente proporcionais as que são
oferecidas à ela, em todo tempo, em todo lugar, à toda hora.
Achei lindo aquele reconhecimento, pedi que ela os
descrevesse para mim, fizesse por escrito um testemunho. E ainda disse mais,
que se ela me permitisse, assim que me entregasse, eu o publicaria aqui. Claro,
ela me disse, com um sorriso lindo. E falamos juntas: “Precisamos falar sobre
Kevin”. Falo assim porque penso que esse assunto precisa chegar à mesa dos
pensadores contemporâneos, à mesa da elite branca da esquerda brasileira.
Estive em cartaz agora, em Campo Grande, na Zona Oeste do
Rio de Janeiro, num teatro público. Era para fazer um fim de semana, fizemos
três. A peça, A paixão segundo Adélia Prado abarrotou o teatro, que andava meio
parado de público e deixou, algumas vezes, cinquenta pessoas do lado de fora
bradando por ingresso a cinco reais, preço popular. O que tomou meu coração foi
ver a delícia daquele povo inteligente, inquieto, curioso, estudioso, ser
considerado.
Muita gente de esquerda ali, e entenda-se esquerda aqui como
aquele que acredita numa sociedade que beneficie a todos e não aquela que só
quer saber dos privilégios de alguns em detrimento da miséria de muitos. O
Brasil mudou minha gente. Alô alô elencos da Zona Sul, bora pra Zona Oeste!!
Bora encontrar a quebrada. Há vida inteligente do lado de lá. Nessa última década muitos pretos entraram na
universidade, muita gente da favela fez curso técnico, entrou para movimentos
sociais, botou reparo no que dizem os versos de rappers como Emicida, Criolo,
Rico Dalasam e tantos outros. Gays, trans, movimentos negros da quebrada, tudo
está pulsando diferente. Há uma rapaziada negra que está doida para votar num
representante negro. Se não negro na cor, negro no olhar.
Há uma juventude negra e pobre que já sacou que são os
primeiros a morrer e que,sem estudo, fica-se mais desprotegido. Há as
populações nas comunidades que já viveram a experiência de terem feiras
literárias em suas praças, papel que a Flupp, agora Feira Literária das
Favelas, exerce como um exemplo crasso de nova cidadania através da literatura.
A favela não é só feita de evangélicos, e há entre estes, aqueles que também
podem ser esclarecidos sobre qual lado é mais perto dos princípios de Jesus.
Eu quero dizer que, da mesma maneira que para alguns,
Carolina Maria de Jesus deve ficar invisível “porque não é literatura” da mesma
maneira que podem ficar invisíveis as melhores cantoras negras do Brasil,
inúmeros atores, dezenas de artistas plásticos negros e tantas outras
profissões banais nos ricos salões, da mesma maneira é invisível a esquerda
brasileira que não pertence à elite. Ela existe e as pessoas que têm o
pensamento avançado e que querem agir politicamente de maneira profunda, estão
dispostos a essa autocrítica para que se torne mais coerente e mais legítima a
nossa luta. Estes devem se lembrar de que houve abolicionistas brancos que,
transgressores, frequentaram reuniões nas senzalas, fizeram pontes com os
Quilombos, e que até se recusavam, como foi o caso de José Bonifácio, a ter
escravos. Não podemos esquecer que essa gente deixou herdeiros, passou o
bastão. E mesmo que em sua casa, nas grandes festas de família, não haja um
cunhado preto, ou cunhada, ou sobrinho, não se desespere, a revolução pode
começar por você. Quando a bola chegar na sua vez, faça ela mudar de lado.
Como ensinar um filho a ser humanista, não racista se, na
casa da gente, nenhum preto amigo frequenta nenhuma festa? Como? Como explicar
isso, sendo Brasil?A Casa Gande era, sobretudo, mimada e se queremos mesmo nos
livrar de seus preceitos escrotos, temos que parar de achar que ser clean e
elegante é não usar cor, é não sambar, é não estar à vontade na alegria de
viver.
Aquela mesma alegria que trago até hoje e que fez com que,
nos tempos de faculdade, pensassem que era menor a minha revolução. Precisamos
nos unir, a fortalecer nossa gira. Somos muitos. Os conservadores são menos
intolerantes entre si. E é isso que peço a todos. Vamos crescer. É necessário.
Nenhuma esquerda, nenhum cidadão deve ser excluído numa luta dos direitos
iguais. Se assim for, tudo pode ficar sem razão. Como diz o Criolo: “Meninos
mimados não podem reger a nação.
Por: Elisa Lucinda
Fonte: Blog Jornalistas Livres

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