sábado, 3 de junho de 2017
A pixação não é arte. E não é para ser
Por Andy Jankovski.
Tem se levantado uma polêmica
ultimamente em relação às atuais atividades politiqueiras do atual
prefeito da cidade de São Paulo, João Dória, e seu programa “Cidade
Limpa” que visa deixar a capital paulista mais… esteticamente aceita
pela maior parte da classe média e elite paulistana. Não é de se admirar
o desprezo de Dória pela expressão periférica, uma vez que é acostumado
à galerias de arte particulares, criado rodeado por Portinaris e
Picassos e cujo único contato pessoal com os reles mortais da periferia
são provavelmente seus serviçais. Dória apresenta uma visão simplista e
cega do que é o pixo, mostrando que não consegue compreender a
subjetividade das identidades periféricas da cidade que administra.
Contudo, é interessante explicitar que,
por mais que boa parte da população (paulista e brasileira) não esteja
de acordo com muitas visões e atitudes do prefeito, grande parte se
aparelha a ele ao também não considerar pixo como arte e ceder apoio aos
apagamentos dos muros pixados que “poderiam ser trocados por grafitis”.
Importante compreender que apenas no Brasil e alguns países da América
latina se faz essa distinção entre pixação e grafiti. Na Europa, por
exemplo, tudo é considerado parte do mesmo corpo, o grafiti, mas quando
nos focamos especificamente no cenário urbano paulistano e nessa
dicotomia arte/não-arte do pixo, caímos numa discussão muito mais
complexa que apenas estética.
Associada diretamente ao crime e ao
vandalismo, o pixo é visto com maus olhos por aqueles que não vivem a
realidade periférica. O pixo, mais que uma expressão, tece uma rede de
sociabilidade, apropriação dos espaços urbanos e reconhecimento que eles
estabelecem de suas próprias identidades. O pixo é composto em sua
massiva maioria por homens, jovens entre 13 e 25 anos, pobres e
moradores de bairros periféricos de São Paulo. O pixo estabelece
relações entre pixadores, seja de competição, demarcação de territórios,
desbravamento dos espaços urbanos ou de feitos (quanto mais alta a
pixação, maior o reconhecimento do pixador no seu meio).
O pixo não é Arte. A Arte é sublime,
pertence ao Olimpo social cuja população periférica não possui ticket de
entrada. O pixo é uma contra-arte, contra-estética, contra-cosmética
social, não é feito para ser agradável. A assinatura do pixador no ponto
mais alto da cidade demarca uma subjetividade, uma identidade a quem
está acostumado a ser número, mera estatística. O pixo invade, se impõe,
ele não é feito para ser estético ou bem quisto, se o for perde o
propósito. A pixação é um grito de resistência, de existência. É uma
luta pessoal do pixador e de seu grupo contra o apagamento social
cotidiano de sua classe, de sua cor.
Por se dizer que a pixação seja uma
expressão, é possível que digam que se trata de uma imposição do ego do
pixador, mero agrado narcísico. Pois bem, e a Arte da alta cultura
também não o é? Grande parte dos grandes artistas da História não
dedicaram suas vidas ao autorretrato, a uma eternização da própria
existência, de uma estetização da própria face? A que se dedicou
Rembrandt, Frida Khalo, Van Gogh? O pixador, porém, diferente desses,
não é convidado à Galeria, sua obra, seu nome, sua grafia não interessa à
alta cultura de olhos refinados por leituras de páginas e páginas de
livros de História da Arte. A pixação é um rasgo na fina seda dessa
sebocidade hipócrita que são as normas sociais elevadas, é uma incômoda
mancha de vinho barato na camiseta branca Giorgio Armani de João Dória e
amigos.
A “feiura” do pixo denuncia o abandono
de toda uma casta marginalizada que enfrenta todo santo dia o apagamento
com tinta branca dos dirigentes engravatados, eles pintam de preto os
espaços de um Estado que os pinta de vermelho todos os dias. Neste
cenário, quanto tempo dura o muro para inglês ver, que é pura aparência
sórdida de uma realidade dura, feia, cinza e incômoda… como o pixo? O
pixo não é arte e não é para ser, é um reflexo de uma sistema desigual e
não importa o quanto de tinta se gaste, vai continuar existindo
independente de nossas opiniões.
“A gente pixa, você pinta. Vamos ver quem tem mais tinta?”
—
Fonte: Parágrafo 2.

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