Para Belluzzo e Delfim, política de ajuste de Temer é insana
e Brasil voltou a ser colônia. Em debate na USP, economistas avaliam conjuntura
econômica do país, consideram "péssimas" as perspectivas da indústria
nacional e "grave" a falta de políticas de investimento, sem as quais
afirmam que o crescimento não voltará
Eduardo Maretti, RBA
A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)
da USPreuniu, na noite de ontem (11), os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e
Delfim Netto para debater a crise brasileira, em mais um painel do seminário
internacional “As Razões do Agir: universidade e sociedade na crise da globalização“,
iniciado em agosto. No módulo “A agenda brasileira: superando a miséria da
crítica“, os economistas concordaram ao apontar que as perspectivas para o
Brasil estão longe de permitir análises otimistas.
Para Belluzzo, a atual política econômica de ajuste fiscal
do governo Michel Temer é “uma coisa de insensatez“. “Não entra na minha cabeça
fazer um ajuste fiscal e cortar o investimento desse jeito. Isso não existe. É
uma coisa insana.”
“Voltamos a ser colônia. Os economistas que estiveram no
poder conseguiram“, disse Delfim. “Não adianta discutir. Se o Brasil não voltar
a se pensar 25 anos à frente, não vamos sair desse enrosco.”
Belluzzo voltou a criticar a repetição dos conceitos
macroeconômicos por economistas e as citações intermináveis desses conceitos
pela mídia, citando particularmente a GloboNews, como se fossem verdade
absoluta. “O que chamamos de macroeconomia é de um nível de abstração e
incapacidade de se comunicar com o mundo concreto que é assustador.” Segundo
ele, alguns autores consideram que a macroeconomia “virou uma forma de controle
da sociedade, e não (serve para) explicá-la.”
Na opinião de Belluzzo, sem investimento, situação agravada
com a Emenda Constitucional 95/2016 (conhecida como a emenda do teto dos
gastos), no longo prazo, a economia não tem mecanismos que a façam avançar.
Para piorar a situação, “a composição da carga tributária é muito iníqua e
injusta, e repousa sobre impostos indiretos, mais ou menos 55% da carga, o que
reforça a má distribuição da renda“, disse.
Segundo Belluzzo, o Brasil conseguiu chegar a ser um país
industrializado porque tinha “desenho institucional“. Para se desenvolver, a
indústria do país se beneficiou da “sinergia” que funcionou entre Estado,
empresa pública, empresa privada e estrangeira, que vem desde os anos 30.
“Tínhamos uma organização que não era perfeita, mas suficiente para garantir a
expansão. Nos anos 90, destruímos esse arranjo. O que assistimos hoje é a
tentativa desesperada de se achar uma fórmula para encontrar um mercado que não
existe“, disse Belluzzo, sobre as políticas adotadas a partir do chamado
Consenso de Washington.
Delfim Netto afirmou que os valores necessários à “sociedade
que queremos” estão na Constituição Federal de 1988: plena liberdade
individual, igualdade de oportunidades e eficiência produtiva. Para isso,
defendeu, “precisamos de um Estado forte, regulado pela Constituição.”
Para Delfim, a atual conjuntura mais uma vez comprova que,
quando o sistema financeiro se apropria da economia real, o investimento acaba.
“Criou-se uma sociedade de rentistas. Começou com Reagan imitando a Thatcher.
Convenceram o Reagan que o mercado era um mecanismo perfeito“, disse, em
referência ao ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan (1981-1989) e à
ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1979-1990).
Apesar de tudo, disse Delfim, “o Brasil não é um fracasso:
com toda essa confusão, somos a sexta economia do mundo“. Em sua avaliação, “a
maior desgraça que nos aconteceu foi usar o câmbio para combater a inflação.
Não é possível manter o câmbio flutuante, foi isso que destruiu a indústria.
Câmbio, salário e juros são coisas muito sérias para deixar na mão do mercado“,
afirmou.
Belluzzo concordou. “Eles estão deixando o câmbio valorizar
de novo. Isso significa um desastre para a indústria brasileira.” Para ele, a
ex-presidente Dilma Rousseff cometeu “um desatino“, ao nomear Joaquim Levy para
o Ministério da Fazenda após ganhar as eleições em 2014. “Joaquim Levy é uma
boa pessoa. Meu tio também é, mas eu não o chamaria para ser ministro da
Fazenda“, brincou. Depois do choque de tarifas, a inflação explodiu e “a
economia capotou“.
Na opinião de Belluzzo, no percurso após a crise mundial de
2008 e 2009, a reação brasileira foi positiva. Depois do agravamento da crise na
Europa em 2011, “começamos a reagir de maneira imprópria, começaram a correr
atrás do crescimento de maneira inadequada“, disse. Segundo ele, as
desonerações exemplificam essa situação.
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