quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Advogado é ameaçado: “Negro, comunista, macumbeiro, estamos de olho em você”


Em Santa Catarina, advogado negro é alvo de ataques racistas com símbolo da Ku Klux Klan. Perplexo, Marco Antonio André resolveu publicar um desabafo nas redes sociais

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Ao sair de casa para colocar o lixo na rua no último domingo, o advogado Marco Antonio André, 40, residente de Blumenau (SC), foi surpreendido com um cartaz que lhe causou perplexidade.
“Negro, comunista, antifascista e macumbeiro. Estamos de olho em você.” A imagem continha ainda o símbolo da Ku Klux Klan e uma ilustração de um membro da seita racista norte-americana apontando para o leitor.
Negro, militante da causa negra e praticante de religiões de matrizes africanas, André é, claramente, o alvo das ofensas. Para não deixar dúvidas das intenções, os agressores colaram os cartazes apenas no poste e na porta da casa dele.
Marco, que diz ser “mais adepto” de Martin Luther King do que de Malcolm X, afirma já ter sido alvo de ataques racistas diversas vezes.
“Todo ano eu desfilo [no Oktoberfest] com os trajes típicos alemães e em todo desfile há problemas, gente que me ofende. Já jogaram copo de chopp na minha cabeça”, relatou o advogado em entrevista ao portal UOL.
A princípio, Marco disse que não publicizaria o caso, mas depois resolveu divulgar o cartaz em suas redes sociais em forma de desabafo. “É uma oportunidade de trazer este assunto à tona e agregar cada vez mais pessoas à discussão”, disse, em entrevista à CartaCapital.
Marco acredita também ser importante realizar um boletim de ocorrência, apesar de não acreditar que de fato alguém será punido. “Eu até tenho alguma esperança de penalização, mas é muito mais para registro criminal e monitoramento do que para identificar o autor em si”.

Extremismo

“Há um discurso de ódio no Brasil e no mundo hoje, um discurso vigorando tanto da extrema esquerda quanto da extrema direita. Um dos meus amigos escreveu que a Caixa de Pandora foi aberta e eu acho que é isso”, diz o advogado.
Neto de uma escrava, Marco conta que no momento do nascimento de seu pai sua avó ainda não havia conquistado a alforria. Apesar da forte ancestralidade, foi somente quando se mudou para Blumenau teve seu encontro com as religiões de matriz africana.

Amor

Apesar das agressões, Marco pretende mais uma vez se vestir de alemão para desfilar na tradicional parada da Oktoberfest. Perguntado recomendaria que comunistas, negros e praticantes de religiões afro visitassem a cidade durante o festival, o advogado ficou em silêncio, riu, pensou, e disse:
“Não vou jogar contra minha cidade. É uma festa importante para a economia da cidade. Talvez o coletivo diga que devêssemos boicotar. Mas sou contra. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Venham para a festa sim. Venham de peito aberto, para se divertir. Tragam amor. Minha religião prega o amor ao próximo, não posso ir na contramão.”

Desabafo

Abaixo, a íntegra do desabafo de Marco nas redes:
Hoje pela manhã os postes da minha rua e a porta da minha casa amanheceram com este aviso.
Todos que me conhecem, sabem o quanto luto para que diferenças sejam respeitadas.
Ser do Candomblé, além de ser um ato de fé, é cultuar meus ancestrais Africanos.
Quando me coloco a favor dos menos favorecidos e luto pelos direitos e igualdade de TODOS, não quero excluir, quero agregar.
Se minha luta contra o fascismo é incômoda para alguns, o problema não está em mim.
Continuarei na minha luta, por uma sociedade justa e igualitária.
Continuarei firme na batalha junto ao NEAB, pois é através da EDUCAÇÃO que mudaremos muita coisa.
Farei, agora mais do que nunca, parte da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil da OAB, pois inclusive em Blumenau, há muitas histórias que não foram contadas.
Obrigado a todos pelas mensagens de apoio, isso só mostra que o autor da faceta é minoria.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Ernesto José de Carvalho dá uma aula de História ao Mirosmar

12 de setembro de 2017 às 16h25
    
Carta Aberta ao Zezé de Camargo

por Ernesto José de Carvalho, o Ernestinho




Caro Mirosmar, mais conhecido como Zezé de Camargo,

Acordei hoje e de cara recebi com tristeza sua entrevista, onde o senhor afirma que não houve Ditadura no Brasil e sim uma liberdade vigiada. Deixe-me lhe contar uma história.

Meu pai, assim como você e milhões de brasileiras e brasileiros, veio pra São Paulo atrás de uma vida melhor, também vindo do interior do país, no caso do meu pai e seus quatro irmãos e uma irmã saíram de Muriaé-MG, nos anos 50, todos com idade abaixo de 15 anos.

Também trabalharam na roça pra ajudar no sustento da família (ouvi dizer que também foi seu caso), ao chegar a São Paulo, período ainda da industrialização, passaram a trabalhar no pesado, meu pai Devanir trabalhava como louco de dia e à noite fazia curso para se tornar torneiro mecânico, meus tios Jairo e Joel, gráficos, e o Daniel e Derly, metalúrgicos.

A história deles se confunde com a sua e a de milhões de retirantes até aqui, só até aqui.

Diferentemente de você todos eles passaram a se indignar com o sofrimento vivido pela grande maioria de seus semelhantes, em condições de extrema pobreza causada pela enorme desigualdade social, imposta por uma política escravagista, excludente, elitista e cruel.

No início dos anos 60, todos eles já estavam comprometidos com a construção de uma resistência constitucional via sindicatos de classe, movimentos sociais e partidos políticos — assim como deve ser num estado democrático.

A eleição de 1960 levou à presidência pelo voto direto o Sr. Jânio Quadros e seu Vice João Goulart.

Com a renúncia de Jânio (forças ocultas, lembra?), João Goulart assumiria a presidência em 1961, propondo as reformas de base, Educacional, Política, Agrária e Fiscal, que atenderiam às demandas da população mais vulnerável e desprotegida economicamente.

Por essa razão, unicamente por ela, setores da elite econômica se aliaram aos militares — digo, alguns setores do Exército brasileiro — e passaram a conspirar para que o Vice-Presidente não assumisse o cargo.

Entre 1961 e 31 de Março de 1964, o que se viu no país foi uma sequencia de um jogo antidemocrático, criando uma tensão política insustentável.

Na noite de 31 de Março de 64, tiraram nosso presidente à força do cargo.

A partir daí, para manter o status quo, os militares implementaram uma das mais sanguinárias ditaduras do mundo, caro Zezé.

Perseguiram e mataram seus opositores políticos — como o Deputado Rubens Paiva, preso e morto nos porões da Ditadura — jornalistas como Wladimir Herzog, preso e morto nos porões da ditadura, artistas presos, torturados, banidos do país e muitos assassinados, também nos porões da Ditadura.

Muita gente, mas muita mesmo, de diversos setores da sociedade, resistiu à violência do estado, muitos camponeses assim como meu pai e tios, também resistiram, diferentemente de você, que virou as costas aos seus contemporâneos, à sua gente simples, da roça, que carrega em seus semblantes a pele marcada pelo sol forte do trabalho duro do campo.

Essa gente nunca se esqueceu das belas paisagens do campo, da simplicidade do interior, da solidariedade dos vizinhos, da confiança entre homens e mulheres.

Acima de tudo, eles nunca perderam a dignidade.

Meu pai Devanir José de Carvalho foi preso e torturado até a morte em 5 de Abril de 1971, aos 28 anos; minha mãe foi presa e banida do país aos 25 anos; meu tio Jairo José de Carvalho, preso, torturado e banido do país aos dezessete anos; meu tio Derly José de Carvalho, preso, torturado e banido do país aos 30 anos; meu tio Daniel José de Carvalho capturado aos 26 anos, nunca encontramos seu corpo; meu tio Joel José de Carvalho capturado aos 25 anos, nunca encontramos seu corpo; eu, aos três anos de idade, sai do Brasil clandestinamente com minha mãe, vagando por vários países, fugindo de outras ditaduras e do pavor de sermos capturados pelos senhores que “vigiavam” a sociedade brasileira.

Desculpe, caro Mirosmar, a Ditadura existiu, e foi uma das mais sanguinárias da história recente da humanidade.

Ernesto José de Carvalho

11 de Setembro 2017


Salve Allende!

Brasil voltou a ser colônia com política de Temer, dizem economistas

Para Belluzzo e Delfim, política de ajuste de Temer é insana e Brasil voltou a ser colônia. Em debate na USP, economistas avaliam conjuntura econômica do país, consideram "péssimas" as perspectivas da indústria nacional e "grave" a falta de políticas de investimento, sem as quais afirmam que o crescimento não voltará

Eduardo Maretti, RBA
A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USPreuniu, na noite de ontem (11), os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Netto para debater a crise brasileira, em mais um painel do seminário internacional “As Razões do Agir: universidade e sociedade na crise da globalização“, iniciado em agosto. No módulo “A agenda brasileira: superando a miséria da crítica“, os economistas concordaram ao apontar que as perspectivas para o Brasil estão longe de permitir análises otimistas.

Para Belluzzo, a atual política econômica de ajuste fiscal do governo Michel Temer é “uma coisa de insensatez“. “Não entra na minha cabeça fazer um ajuste fiscal e cortar o investimento desse jeito. Isso não existe. É uma coisa insana.”

“Voltamos a ser colônia. Os economistas que estiveram no poder conseguiram“, disse Delfim. “Não adianta discutir. Se o Brasil não voltar a se pensar 25 anos à frente, não vamos sair desse enrosco.”
Belluzzo voltou a criticar a repetição dos conceitos macroeconômicos por economistas e as citações intermináveis desses conceitos pela mídia, citando particularmente a GloboNews, como se fossem verdade absoluta. “O que chamamos de macroeconomia é de um nível de abstração e incapacidade de se comunicar com o mundo concreto que é assustador.” Segundo ele, alguns autores consideram que a macroeconomia “virou uma forma de controle da sociedade, e não (serve para) explicá-la.”

Na opinião de Belluzzo, sem investimento, situação agravada com a Emenda Constitucional 95/2016 (conhecida como a emenda do teto dos gastos), no longo prazo, a economia não tem mecanismos que a façam avançar. Para piorar a situação, “a composição da carga tributária é muito iníqua e injusta, e repousa sobre impostos indiretos, mais ou menos 55% da carga, o que reforça a má distribuição da renda“, disse.

Segundo Belluzzo, o Brasil conseguiu chegar a ser um país industrializado porque tinha “desenho institucional“. Para se desenvolver, a indústria do país se beneficiou da “sinergia” que funcionou entre Estado, empresa pública, empresa privada e estrangeira, que vem desde os anos 30. “Tínhamos uma organização que não era perfeita, mas suficiente para garantir a expansão. Nos anos 90, destruímos esse arranjo. O que assistimos hoje é a tentativa desesperada de se achar uma fórmula para encontrar um mercado que não existe“, disse Belluzzo, sobre as políticas adotadas a partir do chamado Consenso de Washington.

Delfim Netto afirmou que os valores necessários à “sociedade que queremos” estão na Constituição Federal de 1988: plena liberdade individual, igualdade de oportunidades e eficiência produtiva. Para isso, defendeu, “precisamos de um Estado forte, regulado pela Constituição.”
Para Delfim, a atual conjuntura mais uma vez comprova que, quando o sistema financeiro se apropria da economia real, o investimento acaba. “Criou-se uma sociedade de rentistas. Começou com Reagan imitando a Thatcher. Convenceram o Reagan que o mercado era um mecanismo perfeito“, disse, em referência ao ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan (1981-1989) e à ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1979-1990).

Apesar de tudo, disse Delfim, “o Brasil não é um fracasso: com toda essa confusão, somos a sexta economia do mundo“. Em sua avaliação, “a maior desgraça que nos aconteceu foi usar o câmbio para combater a inflação. Não é possível manter o câmbio flutuante, foi isso que destruiu a indústria. Câmbio, salário e juros são coisas muito sérias para deixar na mão do mercado“, afirmou.

Belluzzo concordou. “Eles estão deixando o câmbio valorizar de novo. Isso significa um desastre para a indústria brasileira.” Para ele, a ex-presidente Dilma Rousseff cometeu “um desatino“, ao nomear Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda após ganhar as eleições em 2014. “Joaquim Levy é uma boa pessoa. Meu tio também é, mas eu não o chamaria para ser ministro da Fazenda“, brincou. Depois do choque de tarifas, a inflação explodiu e “a economia capotou“.

Na opinião de Belluzzo, no percurso após a crise mundial de 2008 e 2009, a reação brasileira foi positiva. Depois do agravamento da crise na Europa em 2011, “começamos a reagir de maneira imprópria, começaram a correr atrás do crescimento de maneira inadequada“, disse. Segundo ele, as desonerações exemplificam essa situação.

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